Publicado em 3/11/25, às 14h47.

A abertura da sétima edição do Seminário Internacional de Rastreamento de Ativos no Combate ao Crime Aquisitivo, realizada nesta segunda-feira, 3 de novembro, reuniu representantes do Ministério Público, do Judiciário e da Advocacia, na sede do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em Brasília. O evento é promovido em parceria com o Instituto Brasileiro de Rastreamento de Ativos (Ibra) e tem transmissão ao vivo durante todo o dia.
“Você não combate a fraude e a corrupção combatendo a fraude e a corrupção. Você combate melhorando o sistema”. A frase, dita por Rodrigo Kaysserlian, diretor presidente do Instituto Ítalo-Íbero-Brasileiro de Estudos Jurídicos (IBRA), resumiu o objetivo do encontro. Para ele, o crime de desvio de ativos é um crime de cálculo, que só será prevenido com um sistema eficiente de detecção, julgamento e recuperação de valores. O entendimento é que quem age com intenção de fraudar pensa: será que vou ser descoberto, processado, condenado? E se for, o patrimônio será recuperado? Quando o sistema responde “sim” a essas perguntas, o risco desestimula o crime.
Trabalho integrado
A atuação conjunta entre as diversas instituições foi um consenso entre as autoridades presentes na abertura do evento.
O membro auxiliar do CNMP Lindomar Tiago Rodrigues destacou o trabalho conjunto. Como representante do conselheiro Paulo Passos, presidente da UNCMP, discursou enfatizando o valor da cooperação entre diferentes instituições – Ministério Público, advocacia, Poder Judiciário e grupos de trabalho.
A conselheira Karen Luise Vilanova reforçou que o rastreamento de ativos é uma das expressões mais concretas da efetividade da Justiça e da luta contra a corrupção. Ela lembrou que o tema conecta o Brasil a compromissos internacionais, como a Convenção de Mérida, e destacou o domínio de técnicas, de análise financeira, conhecimento sobre estruturas societárias, nacionais e internacionais, sensibilidade para a cooperação jurídica e, obviamente, respeito às garantias processuais e ao devido processo legal. “Nesse contexto, o Conselho Nacional do Ministério Público deve ser parceiro dessa atuação”.
O conselheiro Fernando Comin chamou a sociedade a participar ativamente do enfrentamento da corrupção. “É preciso o envolvimento de todos os setores — público, privado e cidadãos — nessa responsabilidade. O crime organizado está em todo o país, e precisamos enfrentá-lo juntos”, disse.
Na mesma linha, o juiz de 2º grau Emerson Sumariva Júnior defendeu o aperfeiçoamento do sistema jurídico, conciliando a proteção de direitos fundamentais com a efetividade das cobranças. “O devedor precisa ser protegido, mas também precisa ter condições de cumprir suas obrigações. É uma questão de equilíbrio entre o réu e o credor”, afirmou.
O ministro do Superior Tribunal de Justiça Paulo Dias de Moura Ribeiro destacou que o combate à fraude está diretamente ligado à promoção da justiça social. “Não é possível se falar em bem-estar sem capital”. Para o ministro do STJ Paulo Dias de Moura Ribeiro, o desenvolvimento social e a erradicação da pobreza estão intrinsecamente ligados à questão do capital e à justiça social. “O que está acontecendo no nosso país, nós precisamos pôr um cobro a isso. E nestes encontros é que surgem as melhores ideias a respeito de uma sociedade livre e democrática, conforme o Estado Democrático de Direito".
Manual de Atuação
Veja a programação
Painel 1 – Como Citar Estruturas Jurídicas Estrangeiras: da Carta Rogatória à Efetividade Processual
Debate sobre caminhos eficientes para a citação de estruturas jurídicas estrangeiras, uso de tratados como a Convenção de Haia, falência auxiliar e outros instrumentos disponíveis.
Painel 2 – Desmistificando os instrumentos para obter a recomposição dos prejuízos causados às vítimas em casos de fraude
Análise dos instrumentos processuais no direito brasileiro para responsabilização do fraudador, incluindo sócios ocultos e beneficiários finais, com destaque para a inovação do art. 82-A da Lei 11.101/05.
Painel 3 – Dos obstáculos comumente identificados no curso do litígio
Debate sobre estratégias utilizadas por devedores e envolvidos em fraudes para escapar da responsabilização, como fórum shopping, ônus da prova, individualização da conduta e contemporaneidade dos atos.
Painel 4 – Quanto Vale uma Fraude? Alcance e Limites da Responsabilização no IDPJ
Reflexão sobre critérios para quantificação da responsabilidade no Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica (IDPJ), com base no artigo 50 do Código Civil.
Painel 5 – Culpa da Vítima? Função do Administrador Judicial. Princípio da Causalidade e Sucumbência no IDPJ
Reflexão sobre a aplicação do princípio da causalidade nos casos de IDPJ, o impacto da condenação em sucumbência sobre credores já lesados e os riscos sistêmicos gerados pela insegurança jurídica nesse contexto.
Painel 6 – Regras do Jogo: Perspectivas Legislativas e Institucionais para o Aperfeiçoamento do Sistema Jurídico Brasileiro
Encerramento com propostas de ajustes legislativos e institucionais para tornar o sistema mais eficiente no combate à fraude patrimonial e na proteção do crédito.
Foto: Leonardo Prado (Secom/CNMP).